
Copacabana-Rio de Janeiro
André Comte-Sponville, filósofo francês, analisa o relacionamento humano com o desejo, evocando proposições de quatro pensadores extraordinários. Recorda Sócrates quando disse: "amor é desejo, e desejo é falta". Lembra Platão que teria afirmado: "o que não temos, o que nos falta: eis o objetivo do nosso amor e do nosso desejo". Cita Sartre que acredita que "o homem é, essencialmente, desejo de ser, e desejo é falta". Destaca Schopenhauer, como o mais pessimista de todos, ao dizer: "a vida é um pêndulo entre o sofrimento e o tédio". A lógica desse raciocínio pode ser assim resumida: quem sofre pela falta, e, após realizar o desejo, sofre pelo tédio, ou seja, quando não tem reclama, quando tem, não se satisfaz.
A síntese do quanto foi articulado por ditos filósofos pode ser estar contida na expressão: ``feliz é aquele que possui o que deseja``. Mas, na verdade, feliz é aquele que deseja o que já possui, contentando-se com o que está sob sua posse e não com o que ainda é aspiração idealizada. Nessa linha de raciocínio, encontra-se o apóstolo Paulo que diz: ``aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação`` (Fp 4:12). Ou seja, aprendi a desejar o que possuo.
A filosofia, de regra, promove a indagação: quem é um homem feliz? E responde: feliz é aquele que é capaz de vir a possuir o objeto de seu desejo. Ledo engano. O comum é, depois de satisfeitos todos os desejos, vir a constatação que tudo não passou de vaidade, simples ilusão, bola de neve, uma nada, tirania do desejo. Logo, quem vive corroído pelo desejo imoderado do que não tem não é capaz de desfrutar o que tem. Vive a falta, desperdiça o que possui e não é feliz. Seu entendimento de felicidade encontra-se equivocado. A referência saudável ou não patológica recomenda: ``é melhor desejar o que se possui do que trabalhar para possuir o que se deseja insaciavelmente``.
O Eclesiastes, livro inusitado do antigo testamento, recita: ``Deus dá riqueza, bens e honra ao homem, de modo que não lhe falte nada que os seus olhos desejam...`` (6:2). De igual, usando de bela fala literária, Haroldo de Campos propõe ser ``melhor contentar-se com o que os olhos veem do que com as andanças da alma``, referindo-se ao caminhar sem direção em busca de prazeres para satisfazer a sede insaciável dos desejos.
Não obstante, a indústria de criação de desejos da alma & fonte de inúmeras perturbações - na sua ganância e consumismo, invade o coração do homem, provocando um vazio sem limites e uma angústia sem fim.
Esse é o dilema da vida contemporânea, onde o homem é lançado entre o normal e o doentio, entre a verdade e a mentira; mergulhado na dúvida, na ansiedade, nos pensamentos antecipatórios, descontente em toda e qualquer situação.
É imperativo, pois, reaprender a desfrutar a existência sem neuroses sobre o futuro, concentrando-se naquilo que é eterno, real e verdadeiro; voltar a ser pleno e satisfeito, sem anseio ou aspiração rumo a um alvo cada vez mais inatingível.
EDILSON SANTANA, promotor de Justiça.