JOSÉ Martiniano DE ALENCAR nasceu em 1° de maio de 1829, em Messejana (Ceará), e faleceu em 12 de dezembro de 1877, no Rio de Janeiro. Formado em advocacia, exerceu pouco tempo a profissão, dedicando-se à política, ao jornalismo e, sobretudo, à literatura. Romancista, dramaturgo, crítico, político, jornalista e poeta, Alencar é uma das figuras mais importantes do século XIX brasileiro. Sua obra compreende duas dezenas de livros de prosa ficcional, oito peças de teatro, crônicas, poesia e crítica literária.
Sua primeira participação significativa na vida cultural brasileira foi uma crítica fundada, porém violenta, ao poema A confederação dos tamoios, de Gonçalves de Magalhães, em folhetins do Diário do Rio de Janeiro, de 1856. Nesses textos, reunidos depois no volume Cartas sobre A confederação dos tamoios, Alencar destaca a carência de caráter romântico da obra e sustenta que a forma da epopeia, mesmo se bem realizada de acordo com os preceitos do gênero, era inadequada aos tempos modernos, que pediam a maleabilidade do romance para atender ao desígnio de compor um texto épico à altura da nação.
No ano seguinte, ainda em folhetins no Diário do Rio de Janeiro, Alencar dará início à sua carreira de romancista, com dois romances breves de atualidade e com O Guarani, romance histórico e aventuroso, inspirado em Walter Scott e Fenimore Cooper. O sucesso desse livro foi avassalador e constitui uma prova de como estava correta a percepção de Alencar quanto à forma adequada à satisfação dos anseios românticos de compor uma epopeia da formação nacional.
Sua obra ficcional costuma ser dividida em três categorias: romances históricos, regionalistas e urbanos. Essa forma de divisão ecoa a proposta pelo próprio Alencar, que apresentava a sua obra, no prefácio a Sonhos d’ouro, como um panorama do desenvolvimento histórico da nação. De seu ponto de vista, Ubirajara e Iracema tratariam, respectivamente, do período anterior à colonização e dos primeiros momentos de contato entre conquistadores e conquistados; O Guarani, As minas de prata e A guerra dos mascates, do período propriamente histórico da nação; já os romances urbanos, como Lucíola e Senhora, retratariam o momento contemporâneo da corte, isto é, da sociedade burguesa do século XIX. Nesse esquema, os chamados romances regionalistas constituiriam um meio-termo, pois, embora seu assunto não seja propriamente histórico, sua intenção é, pois eles permitiriam surpreender, por meio da cor local, o gênio do povo, o testemunho dos tempos passados, preservados pelo isolamento em relação às cidades.
Se os romances foram produzidos segundo um projeto, como pretende o seu autor, ou ao sabor dos contratos editoriais e das inclinações de momento é uma questão de menor importância. O certo é que, de uma forma ou de outra, a obra de Alencar realmente cobre, do ponto de vista temporal e espacial, um amplo espectro das questões do tempo, despertando e satisfazendo, ao longo da segunda metade do século XIX, a curiosidade sobre as várias épocas e as diferentes regiões de um país para o qual a identidade e a unidade eram não só um problema, mas também um programa de Estado.
* Paulo Franchetti é professor titular do Departamento de Teoria Literária da Unicamp.