sexta-feira, 25 de junho de 2010

Jania Perla de Aquino, antropóloga


FOTO:IGREJINHA DO PATRIARCA - SOBRAL/CE
Em entrevista à revista Época, Jania Perla de Aquino, antropóloga, que estuda assaltos a bancos há nove anos e, nos últimos seis, viajando por várias cidades, conviveu com 41 criminosos responsáveis por inúmeros delitos milionários desde os anos 90 do século passado, falou à reporter Mariana Sanches sobre a sua pesquisa inédita quanto a motivação dos assaltantes: “eles assaltam porque querem ficar ricos”.
Segundo suas conclusões, a semelhança entre o Barão de Mauá, que construiu a primeira ferrovia no Brasil, e os criminosos que em 2005 cavaram um túnel até a sede do Banco Central, em Fortaleza, e roubaram R$ 160 milhões, é que ambos têm em comum o gosto pelo risco. O empreendedor arrisca dentro da lei. O assaltante, porém, não vê problema em se arriscar fora dela. Essa é apenas uma das suas polêmicas conclusões em uma pesquisa inédita sobre grandes assaltantes.
Diz Jânia que o perfil dos grandes assaltantes é de pessoas pobres e de classe média, a grande maioria concluiu o segundo grau, e só organizam assaltos contra instituições financeiras, sendo que pelo menos metade dos criminosos acumula um patrimônio superior a R$ 1 milhão, e os mais bem sucedidos estão na cifra de dezenas de milhões.
Uma das razões que ouviu de um criminoso para virar assaltante foi a de que a pessoa não entra no crime porque ser pobre é ruim, mas porque ser rico é muito bom.
Segundo a antropóloga, parte do produto do dinheiro que roubam é enviado para paraísos fiscais, mas a maioria usa laranjas no Brasil, havendo dois perfis de investimento. Os assaltantes oriundos da zona rural costumam ter fazendas, imóveis e comércio em pequenas cidades do interior. Já os urbanos compram grandes apartamentos em áreas nobres, roupas de grife e carros esportes.
A vida dos assaltantes não se norteia somente em ações ilegais e muitos são empresários que investem em negócios. Para estes, a sociedade é corrupta e eles não se veem como honestos, mas também não se consideram mais criminosos que a maior parte das pessoas ricas. Alguns chegaram até a propor a antropóloga checar o Imposto de Renda das pessoas ricas de forma a comprovar se elas não sonegaram ao Fisco ou se não escondiam dinheiro no exterior.
A antropóloga conclui que o combate aos assaltos encontra problemas nas técnicas de inteligência da polícia e que o Estado, por sua vez, não consegue mapear o patrimônio dos assaltantes. Arremata, finalmente, esclarecendo que a repressão ao crime só seria eficaz se a Justiça obtivesse êxito no confisco do dinheiro lavado pelos assaltantes porque o pânico dos assaltantes não é ser preso, mas sim ficar pobre.
Fonte: revista Época, edição 588.