domingo, 30 de maio de 2010

TOLERÂNCIA RELIGIOSA


A história comprova o envolvimento de religiões com inquisições, queima de livros, perseguição e morte em nome de Deus; oposição às pesquisas científicas e à liberdade de expressão, evidenciando grande dificuldade de coexistência pacífica. Embora nenhuma religião esteja imune à intolerância, essa prática mostra-se mais evidente, no mundo ocidental, nas chamadas religiões dominantes: islamismo, judaísmo e cristianismo.
A rigor, não se pode dizer que tais religiões, em sua essência, sejam intolerantes, mais há traços nada animadores, tanto no mundo árabe-mulçumano (considerado fanático e irracional), quanto nas regiões onde predominam o judaísmo e o cristianismo, com suas muitas divisões. Logo, os ocidentais não servem de exemplos para povo algum.
John Locke (1632-1704) escreveu sobre o tema a Carta Acerca da Tolerância, dizendo que ``não é a diversidade de opiniões (o que não pode ser evitado), mas a recusa da tolerância para os que têm opiniões diversas, que deu origem à maioria das disputas e guerras que se têm manifestado no mundo cristão por causa da religião``.
Ao revés, a tolerância religiosa está plenamente de acordo com os evangelhos, que manda mamar ao próximo como a si mesmo, de modo que somente os cegos não podem ver essa verdade clarividente.
O certo é que Deus não outorgou a ser humano algum poder absoluto como a salvação das almas. Por isso, a responsabilidade dos formadores de opiniões e eclesiásticos é maior. É um imperativo que os representantes das igrejas se abstenham da violência e de todo e qualquer modo de perseguição. Seu dever é praticar a caridade indiscriminadamente. As crenças são de foro íntimo e, por isso, não se pode molestar quem quer que seja em razão de suas escolhas no campo da fé.
Com efeito, já dizia o filósofo iluminista e escritor Voltaire (1694-1778): ``Não concordo com uma única palavra do que dizes, mas lutarei até a morte pelo teu direito de dizê-las``.
Indignado, frente a tais injustiças, o mesmo, em seu Dicionário de Filosofia, é incisivo com aqueles que praticam a intolerância religiosa: ``Insensatos que nunca haveis podido prestar um culto puro a Deus que vos criou! (...) Monstros que tendes precisão de superstições como o bucho do corvo tem precisão de cadáveres!``.
Logo, nada justifica a intolerância religiosa, que tem como fundamentos essenciais a sede de poder, as superstições e os preconceitos. A pluralidade de crenças é perfeitamente compatível com o presente estágio da humanidade, impondo-se um dever ético e legal o respeito de tal diversidade.
Desde a antiguidade clássica, a reação contra a liberdade de expressão foi sempre a arma dos opositores com a finalidade de se proteger dogmas e defender interesse de dominação. O escritor português José Saramago acha um absurdo que haja seres humanos que não entendem que, ao matar em nome de Deus, estão transformando Deus em um assassino, inquisidor e perseguidor.
Por conseguinte, quem queima livros também queima homens, mas certas religiões continuam pintando Deus à sua imagem e semelhança.
Enfim, em pleno século XXI, é preciso refletir a intolerância, debatê-la, repudiá-la, mostrando-se respeitosos e tolerantes com as concepções religiosas dos outros, inclusive com o direito dos que não professam nenhum credo.
Somente assim, chegará o dia em que as religiões, fazendo valer os seus verdadeiros postulados, alcançarão os seus reais objetivos, deixando de ser consideradas ``o ópio do povo``, rejeitando toda e qualquer forma de conflito, priorizando a paz, a solidariedade e a fraternidade, plenamente justas e igualitárias.

EDILSON SANTANA é professor de Filosofia e promotor de Justiça.